
Daqui a pouco, completarei um ano de iniciada e um ano de frequência no blog “O Candomblé” e durante esse ano observei, li muito, perguntei como poucos e aprendi um centésimo do que ainda há para aprender.
Mas o que mais me chama a atenção são os motivos que levam as pessoas a virem comentar e perguntar no blog. Muitas vezes, dou uma de leitora invisível e fico esperando qual será a resposta dos meus mais velhos e mais experientes daqui aos que tanto chegam. Até que me atrevi a começar a responder, tirar dúvidas naquilo que eu sei e assim, passei a fazer ainda mais parte dessa família. Mas vamos voltar aos motivos das pessoas.
Muitas pessoas vêm e perguntam sobre qualidades postas por zeladores que a viram uma única vez na vida (enquanto há iyawos que ainda nem tomaram conhecimento da qualidade do seu orixá), sobre qualidades raras, sobre de qual orixá seria ela filha, por que não rodam, por que rodavam e não rodam mais, como fazer em tal situação… São tantos tipos de perguntas… Mas o que percebo é que nas entrelinhas, essas pessoas dizem: “Estou perdida” e muitas vezes não respondemos nada diretamente ligado a sua pergunta, mas às entrelinhas. E é essa a resposta que elas querem.
Zeladores existem aos montes, todo final de semana, em algum lugar do mundo, talvez dezenas de pessoas recebam a permissão ao sacerdócio, o Deká. E se há tantos zeladores, deveria haver menos pessoas perdidas, soltas ao vento e sem saber que rumo tomar, quanto à religião. Aí que entra o “nascer para”, dessas dezenas de “recém-zeladores”, oitenta por cento (me atrevo a numerar), oitenta por cento serviriam bem mais como egbomis em suas casas matrizes.
Já ouvi casos absurdos e inaceitáveis: zeladores que fazem filhos sem ao menos dominar o oráculo da nossa religião, os búzios; fazem santo a domicílio; buscam “fundamentos” fora da sua casa matriz para falarem que tem “um adicional”.
E assim vão surgindo os “filhos”: filhos abiãs cujo orixá já tem qualidade, filhos de qualidades “raras” e filhos que são sugados o quanto suportam tendo que fazer um ebó por semana e cada ebó custando “trocentos” reais. E isso ainda não é nada, depois vem o medo, medo de sair da casa e o pai-de-santo fazer alguma macumba, do orixá “atrapalhar” e a imaginação, invadida pelo medo, corre solta…
E o direcionamento? Este tão necessário não é passado.
São por estes e tantos outros motivos que falo e repito: o sacerdócio não está para todos. Não é um simples entregar de uma bandeja com seus direitos. Há muito mais do que essa cerimônia de apresentação: há a paciência para lidar com cada cabecinha que compõe o terreiro, há a maturidade para driblar as diferenças e mostrar os caminhos dentro da religião, há a aptidão e humildade para sempre estar em processo contínuo de aprendizagem. Unir esses três fatores, que não são os únicos por sinal, e encontrá-los numa pessoa não é assim como um nascer e um pôr do sol, e nem o tempo lhe propõe tudo isso. O iniciado tem que nascer com esse mero detalhe no seu caminho, a pessoa tem que ser chamada para essa difícil e edificante tarefa.
Com certeza, se o Deká fosse visto com uma responsabilidade recebida e não como status, os filhos de orixá não estariam tão perdidos assim. Eu não acho ruim que eles venham aqui, procurem saber, perguntem. A vinda de vocês até aqui, meus irmãos, com certeza nos ajuda e muito também nas nossas vidas, pois ao mesmo tempo em que chegamos aqui buscando algum aprendizado, também ensinamos, o mínimo que seja aos outros irmãos.
Confesso que me envolvo e muito com certos comentários, certas histórias, certos depoimentos. Muitas vezes esses depoimentos, demonstram alguma decepção, alguma tristeza adquirida com pessoas irresponsáveis dentro da religião. Isso me deixa mal, mas me conforta me aumenta como ser humano quando leio um “Obrigada, Dayane. Você me ajudou muito”. E fico tão nas nuvens, porque acho que somos todos irmãos, e temos, na medida do nosso possível, ajudar-nos uns aos outros. Seja com informações, seja com um “Calma, meu irmão.”. Pois quando falei que aqui chegam muitas pessoas perdidas, é por falta de um diálogo sobre a religião, é por falta de um direcionamento não passado pelos zeladores. Nós aqui não damos o caminho, não fazemos previsões, não receitamos ebós e nada do gênero, apenas debatemos, discutimos e tiramos dúvidas possíveis de serem tiradas por este meio.
Sei, todos precisamos de um direcionamento, também faço isso, e nesses momentos costumo aperrear quem mais confio e que está mais acessível a mim.
Por essas dias estive afastada do blog, me envolvi num problema sem solução prevista e vários outros que somados me levaram ao vazio, ao ponto de eu ler as respostas, e não conseguir responder à minha maneira. Os mais observadores devem ter percebido que não sou muito adepta das respostas curtas, elas costumam ser longas e cheias de conselhos (por mais experiência que eu não tenha).
Passei por um momento, onde a tempestade se fez presente, e com a sua fúria, mudou tudo de lugar. Nisso me vi sem saber por onde começar e qual caminho seguir. Parecia não haver caminhos. Mas não há receita melhor que o tempo e as sábias palavras daqueles que nos amam. O tempo passou e me mostrou que aquela tempestade violenta e cheia de fúria chegou não para desarrumar, e sim para reorganizar e preparar tudo para um novo momento chegado para mim.
Então voltei cheia de gás, com ótimas expectativas e morrendo de saudade dessa casa. E este afastamento me fez perceber o quanto é bom ajudar, interagir, mesmo por quilômetros de distância, com vocês. Cresço mais um pouco a cada dia que leio os comentários, respondo os que sei que posso contribuir de alguma forma e fico muito feliz quando, em meio a dois milhões de leitores, alguns vão e voltam com notícias boas, amando seu orixá, convivendo com uma família de orixá idônea.
Escrevi esse texto, para agradecê-los, meus irmãos. Agradecê-los pelo imenso aprendizado e crescimento espiritual que tenho obtido, e ao mesmo tempo dividir minha indignação com esses que se autodenominam zeladores, e deixam assim, pessoas sem o direcionamento necessário na religião. Espero, com toda simplicidade, que essas palavras aqui publicadas possam abrir mais a mente dos adeptos do Candomblé, quando o assunto for o sacerdócio. “Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes”, assim disse Goethe, um escritor Alemão, e assim é, ou ao menos deveria ser.
Sinto até hoje, as conseqüências que esses “zeladores” podem trazer a uma pessoa. Os entraves causados, a falta de confiança e até mesmo a perda da fé. E por ter já passado por isso, ter sido marcada por essas conseqüências e, graças a Oyá, consegui superá-las e fazer renascer minha fé, é que venho até vocês como meio de desabafo e dizer que o assunto é sério sim e precisa da nossa voz para tentar, aos poucos, mudar essa situação. Pois por falta de conhecimento, e principalmente direcionamento, costumamos ligar as decepções, as tristezas adquiridas com as pessoas à religião. Nisso esquecemos do orixá em sua essência, os reais princípios da religião e no que ela de fato contribui com nosso crescimento individual. A religião acaba por pagar pelas pessoas. E não é assim.
Digo sempre que o Candomblé vive em mim e independe dos laços que eu tenha com as pessoas. Se já passei por um zelador irresponsável e hoje Oyá e Xangô colocaram no meu caminho uma zeladora que posso confiar de olhos fechados e assim ter o começo do direcionamento dentro da religião, não foi à toa. Isso me mostrou que eles, os orixás, querem estar no meu caminho e querem que eu esteja no caminho deles. Então assim o fiz: fui iniciada de corpo, alma e coração. E o amor que sinto hoje, a fé que tenho dentro de mim são o que desejo aos irmãos que aparecem cansados, decepcionados e atrás de um direcionamento, pois se aconteceu comigo, também pode acontecer com todos.
Muito obrigada!