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Intolerância Religiosa

Amigos o Ogan Airton nos fez o favor de endereçar esse post para que publicássemos e aconselhássemos as pessoas a ter este material em suas casas de Àse.

São informações importantes que podem nos respaldar na hora que mais precisarmos.

Uma boa leitura a todos e não deixem de baixar, imprimir e encadernar estes documentos.

Intolerância Religiosa

As liberdades de expressão e de culto são asseguradas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela Constituição Federal e muitas outras Leis sobre o assunto.

O Blog Axé Contém todas as Leis referentes à Liberdade Religiosa, como também informa os endereços e telefones dos Órgãos Públicos competentes no Estado do Rio de Janeiro para realização de denúncia contra a intolerância religiosa. Os visitantes poderão salvar e imprimir todo o material disponível.

Recomendamos que após a impressão, esse material seja encadernado e levado para a Casa de Axé. Vale a pena ressaltar que a discriminação religiosa é crime e deve ser combatida e denunciada por todo cidadão.

Blog Axé – http://intoleranciareligiosa.wordpress.com/legislacao/

Bom dia. Informo que todos os endereços dos Órgãos Públicos contidos neste Blog foram localizados através de pesquisas realizadas na Internet.

As Leis Federais e Estaduais citadas sempre existiram, o meu trabalho foi simplesmente agrupá-las em um só lugar.

Sou Técnico Judiciário e a minha intenção foi somente tentar contribuir com informações importantes sobre a fundamentação legal que garante a prática da nossa religião.

Entendo que qualquer cidadão que tenha conhecimento de Legislação, também poderia ter tido essa iniciativa.

Aproveito a oportunidade para comunicar que o Blog ” O Candomblé ” já está contido na “Lista de Links” do Blog Axé.

AS EKEDES

Em atenção às dezenas de solicitações que recebemos após as postagens sobre os Ògáns, vamos falar sobre outra importante figura dentro dos Terreiros de Candomblé, as Ekedes (Èkèjí, Àjòyè, Ìyároba, Makota, a depender da tradição da casa ou nação).

As Ekedes são mulheres que não são incorporadas, mas sim, escolhidas pelas Divindades, para zelar por elas e pelo Sacerdote da Cas…a. São pessoas de grande importância na estrutura religiosa da comunidade, que são admiradas por todos.

Em grande parte das ocasiões, ao longo das festividades, algum Òrìsà escolhe entre as pessoas presentes, uma mulher para suspender/indicar como Ekede, é um momento de grande alegria para todos, onde os filhos da comunidade comemoram. Futuramente, essa mulher poderá, então, ser confirmada como Ekede.

Se fossemos “ranquear” a principal função de uma Ekede, poderíamos afirmar que é zelar pelo Òrìsà quando esse está incorporado em um filho/filha. Uma grande Ekede, sempre está muito atenta aos passos do Òrìsà, ela verifica se há a necessidade de enxugar o rosto da pessoa incorporada, analisa as paramentas, se estão machucando ou se, por ventura, estão se desprendendo das demais vestes.

As Ekedes, em verdade, começam a zelar pelo Òrìsà, antes mesmo da manifestação, sendo que elas verificam todas as roupas e ferramentas com antecedência, garantindo assim, que as Divindades sejam tratadas com muito carinho. Algumas, inclusive, se especializam como costureiras, bordadeiras, somente para ter o prazer de confeccionar as roupas dos Òrìsàs.

O que observamos, com bastante atenção, é que esse carinho/amor desprendido por muitas Ekedes as tornam referência em um Terreiro, sendo respeitadas e admiradas pela comunidade. Quando o Órìsà manifesta alguém, elas rapidamente aprontam tudo, garantindo tranquilidade aos Omo Òrìsà. Elas acompanham os Deuses ao longo das danças, se comunicam com eles e, por vezes, intermediam a sua vontade aos Babalòrìsà/Ìyálòrìsà, Ògáns e outras Ekedes.

Esse trato direto com os Òrìsàs as torna muito próxima deles, razão pela qual, as Ìyáwò e Egbon possuem tanto carinho e respeito por essas senhoras, por vezes, as chamando de mães.

As Ekedes, também, dispensam igual carinho e atenção aos seus Sacerdotes, zelam pelos seus pertences e ficam sempre atentas a qualquer pedido/necessidade. Muitas vezes, atuam como uma espécie de “relações públicas”, representando o Terreiro e recepcionando os visitantes mais ilustres.

As Ekedes, diferente das Ìyáwò e Egbon, não utilizam as saias de baiana com anáguas. A vestimenta das Ekedes varia entre as casa, mas aqui em Salvador, elas usam os chamados “vestidos nago” ou saia sem roda (anágua), permitindo dessa forma, uma maior flexibilidade para as suas atividades (veja a foto do título, com as Ekedes do Terreiro de Òsùmàrè). Aqui em Salvador, somente pela roupa já conhecemos quem são as Ekedes do Terreiro.

As Ekedes são pessoas de grande importância nas Casas de Candomblé, que por meio das suas ações, conseguem contribuir de forma significativa para que o período em que o Órìsà permanece incorporado, seja tranquilo e apaziguador, seja para o filho incorporado, para o Órìsà e, mesmo para toda a comunidade.

O que torna uma Ekede referencia para as demais e para o Terreiro, essencialmente é sua postura perante o Òrìsà e, perante o seu Sacerdote. Para uma grande Ekede, o seu objetivo principal é conseguir tratar o Òrìsà como carinho e amor, essas são as características que tornam uma Ekede em uma grande Ekede.

Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos!

Terreiro de Òsùmàrè

Nossa Religião tem gênero?

Por: Áwo Falase Adesoji Òyasanya Fatunmbi

No capítulo de abertura do livro Paz Interior (Falokun Fatunmbi), há uma citação yorùbá que diz:

As divindades (Òrìsà/Irùnmolè) não podem dar o que sua cabeça (Ori) não quer aceitar.

É a parte mais profunda da sabedoria, já que implica na nossa participação em nossas vidas e a interação com o mundo é crucial.

O Espírito por si só não vai colocar nosso ego em alinhamento com o nosso Eu mais elevado e o nosso destino, ele não é participante ativo (Pois, Orí é determinante).

Em outras palavras, somos co-criadores quando se trata de manifestar os nossos destinos escolhidos. As escolhas são fruto do livre arbítrio, isto é soberano/imperativo, por este motivo estamos sempre prestando conta de nossas atitudes e escolhas, não existe perdão sobre faltas cometidas, caímos, levantamos, seguimos em frente e buscamos não incorrer novamente no mesmo erro, neste ponto vem a elevação espiritual e aplicação do conhecimento que aos poucos se transforma em sabedoria, este é o grande salto (o pulo do gato) de nossa religião, ver o ser humano se transformar e buscar o primórdio de sua formação esta é a atividade fim de nossa religião, melhorar o Ser enquanto humano. Pois, ele é o produto da Fonte (Deus), a razão da existência do culto de òrìsà.

Sim. Você e Ori são a razão de tudo isto que acontece dentro de um Ilè Àse.

Este foi o motivo de Olódùmarè ter mandado seus 400+1 òrìsà/irùnmolè para este mundo físico, cada um com sua responsabilidade e poder sobre um parte da natureza e dos homens, ligados como uma manta holográfica.

Não temos cor, gênero, culturas e etc., diferentes, apenas somos todos intransigentes e Deus não nos deu a faculdade mental para ser usada desta forma míope e mesquinha.

Ifá nos ensina que cada pessoa escolhe o seu destino e sua preparação para vir ao mundo entre os estágios de ida e vinda ou atunwa, o processo de nossa viagem através do canal de parto faz com que o Orí esqueça os detalhes do nosso destino escolhido.

O propósito e o processo do ritual e também várias cerimônias de Ifá nos colocam em alinhamento com o nosso Eu superior, para que nos lembremos daqueles detalhes que estavam escondidos, como resultado de nossa jornada aqui na Terra, o que nos permite cumprir o acordo que fizemos no reino espiritual.

Como participamos ativamente de vários rituais e cerimônias, informamos a memória antiga o nosso papel e o propósito de estar aqui na Terra, para que possamos cumprir nossos respectivos destinos.

Em Paz Interior, Awo Falokun Fatunmbi nos ensina o seguinte:

A forma de ver o mundo, informa como vemos a  nossa vida.

A forma como vemos nossa própria vida, informa como tratamos os outros.

A forma como tratamos os outros é uma medida de caráter.

Na linguagem da religião yorùbá tradicional, Ayanmo não é Ìwà Pèlé.

Ìwá pèlé ni Ayanmo.

Que significa:

Ayanmo não é o bom caráter.

O bom caráter é destino.

Se é através de um bom caráter que se cumpre seu próprio destino, então ele confunde a mente, como se poderia negar a outra pessoa o seu destino, um  assunto que ela tem direito.

A adivinhação por Ifá é uma das pedras angulares da nossa prática, nós consultamos Ifá, òrìsà e os antepassados ​​com freqüência para ajudar a guiar-nos através da vida de maneira mais eficaz. É através da adivinhação que aprendemos a melhor maneira de alcançar este fim. Isso pode significar que podemos dedicar nossas vidas para o culto de uma divindade em particular ou a Ifá e isto seria revelado através do processo de consulta ao oráculo.

Eu não sei como outro ser humano pode negar o destino de outro ser humano simplesmente por causa de orientação sexual ou gênero; para mim esta postura está dizendo que você sabe mais do que Ifá e nem mais do que Òlódúmarè.

Se nossa capacidade é tão grande e não há necessidade do culto de Ifá / Òrìsá como teríamos a capacidade de transcender as nossas limitações com tanta facilidade se não apagá-los todos juntos.

Voltando ao ponto onde Áwo Falokun diz:

A forma como nós nos vemos informa como tratamos os outros.

Há um debate em curso sobre a função do local onde gays e lésbicas se encaixam no mundo de Ifá, tanto tradicional, com os diversos sistemas na diáspora.

Primeiro, pessoalmente, estou cansado dessa conversa porque eu sinto que não serve para nada.

Segundo que eu compartilho minha vida com alguém e isto não é nenhum motivo de preocupação para ninguém.

Em terceiro lugar, homens gays e mulheres lésbicas precisamos parar de dar o seu poder a nossos irmãos e irmãs em linha reta (de forma aberta e direta) para que possamos nos sentir validados.

Eu entendo que ter aliados, é importante, contudo, devemos ter certeza de que nos valorizam em primeiro lugar. Nos meus trinta anos ou mais, crescendo nestas várias tradições tanto homens como mulheres gays (tanto lésbicas e heterossexuais) têm estado na vanguarda em manter estas tradições vivas e funcionando, apesar da discriminação, obviamente.

Àse.

Tradução:

Odé Gbàfàomi.

O Ritual de Ìmótótó e Osé

 

É tradição nas principais casas de candomblé ketu/Nagô, fazerem anualmente o ritual de Ìmótótó e Osé. O Ìmótótó e Osé é feito em todos os Igbás, pejís, ajubós e no Ilé Àse como um todo. Este ritual ficou mais conhecido e generalizado por chamarmos apenas por Osé.

Osé é o nome do sabão preto especial da costa da África e Ìmótótó quer dizer limpeza, higiene, asseio.

 

O Ìmótótó e Osé começará sempre pelo Orixá patrono da casa ou de acordo com os fundamentos da casa, assim, por exemplo, a minha casa é consagrada a Oxalá então ele será o primeiro.

 

Um Ogan antigo e exclusivo, confirmado de Oxalá será responsável por descer Oxalá do Pejí para o Ìmótótó e Osé, que será feito por uma Ajoie antiga e experiente. O mesmo ato se repetirá para todos os Igbás do Babalorixá e demais Oyes antigos, o Ìmótótó e Osé será feito individualmente pelos demais filhos até o mais novo Abiyan com sua quartinha. 

 

As tarefas para o Ìmótótó e Osé deverão ser muito bem distribuídas entre os filhos, de forma ordenada, rápida e silenciosa para não haver lorogun, pois este ritual não deixa de ser é um Ebó.

 

Para cada Igbá de Orixá é necessário que se deixe separado: 5 bacias de ágata para montagem dos banhos; sabão da costa africano e preparado; owaji, osun, efun; no mínimo 4 ervas quinadas específicas do Orixá + 1 molhe de saião; omim; omieró; omitorô; gingibre; bucha; esteira nagô; morim branco.

Alguns Axés também passam dendê nos ferros de Ogun e Oxóssi, após o osé e algumas casas usam outros elementos para o Ìmótótó e Osé.

 

Embora não seja uma regra, os Igbás dos Orixás podem ser colocados no barracão para que seus quartos sejam lavados com água e sabão, numa boa faxina sempre de forma hierárquica e faxina pode se estender a todas as dependências da casa, barracão e no portão da Casa.

 

Dependendo do números de Igbás de cada quarto de santo, poderemos especificar a quantidade de ervas/folhas a ser comprada para ser divididas entre todos e assim, por cada quarto de santo. 

 

Somente o ronkó ou camarinha não passam pelo Ìmótótó e Osé pois neste caso é feito o Ariasé que é o ritual de preparação para o recolhimento nas obrigações de iniciação e de tempo.

 

É importante dizer que os ilús, agogô, aquidaví e todos instrumentos musicais, apetrechos dos Orixás, também passam pelo Ìmótótó e Osé, enfim, nada dentro do Ilé Àse fica sem Ìmótótó e Osé, em especial, no Ilé Àse de Oxalá a limpeza é fundamental.

 

Os encarregados de dar Ìmótótó e Osé nos Orixás que levam dendê em suas ferramentas e Okutás não podem ajudar no Ìmótótó e Osé dos Orixás funfun.

 

No final do Ìmótótó e Osé, arriamos um Ebô em todos os quartos de Exú a Oxalá, damos um bom defumador com atins e ervas específicas, e de acordo com o odú que se apresentou no jogo feito para casa, e se fizer necessário, uma oferenda.

 

O Ritual de Ìmótótó e Osé é pré-determinado através do calendário anual do Ilé Àse para que todos saibam a responsabilidade, a importância e renovem o comprometimento com seu Orixá e a Casa. Existem Casas antigas que fazem Ìmótótó e Osé a cada 6 meses.

 

Tenho observado que este ritual está se extinguindo principalmente nos novos candomblés, novos zeladores não adotam deforma sistemática, sabemos que é muitíssimo cansativo, mas sabemos também, que é além de tudo, uma renovação de fé e intimidade com nosso Orixá e sem dúvida, uma liturgia importante com as águas a fonte da vida 

 

Texto: Fernando D’Osogiyan 

 

ATENÇÃO: Estão copiando os textos postados aqui no Blog e republicando em outros blogs “sem dar o devido crédito aos autores”, isso é lamentável. Passaremos a denunciar essas pessoas aqui no Blog e em toda rede.  

 

 

Òrisà Oko

orisa oko

Òrìsà Oko é o Deus da Fazenda, o Deus da Agricultura, uma Divindade de suma importância na Cultura Yorùbá, mas pouco conhecido no Brasil. No Terreiro de Òsùmàrè ele é festejado há séculos, por meio de obrigações internas e cânticos que destacam o seu grande poder sobre a agricultura. No Candomblé, a exemplo das folhas e água, usamos em abundância os grãos, tubérculos e frutos que a agricultura nos fornece, razão que já evidencia quão importante esse Òrìsà é para a nossa cultura.

Uma antiga história Nàgó, conta que um grupo de pessoas de uma cidade resolveu tramar contra “Olasi”, eles falaram que quando Olasi saísse da sua fazenda eles iriam roubá-lo e bater nele. Essas pessoas tinham grande inveja de Olasi, pois ele tinha grande facilidade em cultivar a terra.

Quando Olasi ficou sabendo da intenção dos seus inimigos, resolveu consultar Ifá, o grande Deus do Oráculo. Ifá disse à Olasi que ele deveria permanecer em sua fazenda por um longo período, cuidando das coisas da terra e que não retornasse à cidade, num período mínimo de um ano. Assim Olasi fez. Nesse período, as pessoas da cidade próxima a fazenda de Olási começaram a passar por grandes dificuldades. As mulheres não engravidavam mais… Os homens não conseguiam trazer alimentos para casa… Toda a cidade ficou em caos.

Nesse período, Olási ficou plantando tudo o que conseguia, criando dessa forma, uma grande produção. Na fazenda de Olasi havia de um tudo. Inhame, milho, feijão, Obì, tudo em abundância. Mas ninguém da cidade desfrutava de toda essa fartura, pois Olasi não retornou mais à cidade.

Prestes de completar um ano, um ancião da cidade consultou Ifá para saber o que a população deveria fazer para que tudo voltasse ao normal. Por meio do jogo, ele descobriu que tudo o que estava acontecendo foi em razão da traição que algumas pessoas da cidade iriam fazer à Olasi. Ifá disse ao ancião, que ele deveria reunir todas as pessoas da cidade e que juntos, eles deveriam ir à fazenda (Oko) de Olási, levando bebidas, tambores e tocando flautas. Quando lá chegassem deveriam pedir perdão à Olasi, pedindo que ele regressasse à cidade.

No outro dia, o ancião reuniu a população da cidade e comunicou o recado de Ifá. Todos foram tocando tambores até a fazenda, quando lá chegaram ficaram maravilhados com tanta fartura, com tantos inhames, com tanto milho. Quando Olasi foi recebê-los eles começaram à gritar: “Òrìsà Oko!!! Òrìsá Oko!!! Òrìsà Oko!!!” (Deus da Fazenda, Deus da Fazenda, Deus da Fazenda).

A partir daquele momento, ele nunca mais foi chamado de Olasi, todas as pessoas o chamavam de “Òrìsà Oko”. Ele perdoou a população, mas disse que, todos os anos as pessoas deveriam fazer uma grande procissão agradecendo por tudo de bom que a terra lhes oferecia. Òrìsà Oko deu a população muitos grãos e inhames e eles voltaram para a cidade em procissão, agradecendo à Òrìsà Oko.

Assim nasceu a procissão de Òrìsà Oko, o Deus da fazenda, o Deus da Agricultura.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!

Ilé Òsùmàrè Aràká Asè Ògòdó

Consciência Negra

Símbolos de resistência, quilombos preservam cultura negra em PE

No estado, há atualmente 112 quilombos reconhecidos pelo governo federal.
Em Vicência, antiga casa-grande virou sede de associação quilombola.

Imagem de Zumbi fica na praça de entrada do Quilombo Trigueiros, em Vicência (Foto: Renan Holanda/ G1)Imagem de Zumbi fica na praça de entrada do Quilombo Trigueiros, em Vicência (Foto: Renan Holanda/ G1)

Logo na entrada do distrito, uma imagem de Zumbi dos Palmares em azulejos recepciona quem chega. E, de certo modo, anuncia que ali se passaram episódios emblemáticos da nossa História. No Quilombo Trigueiros, em Vicência, na Mata Norte de Pernambuco, os resquícios do tempo de escravidão estão impressos em cada ruela da comunidade, onde moram 367 famílias. No Brasil, a Fundação Palmares, ligada ao Ministério da Cultura, é o órgão responsável por formalizar a existência de quilombos e assessorá-los no acesso a políticas públicas de ingresso à cidadania.

Na definição da Fundação, “quilombolas são descendentes de africanos escravizados que mantêm tradições culturais, de subsistência e religiosas ao longo dos séculos”. O povoado de Trigueiros foi assim reconhecido em 2008. No Brasil, são 2.431 comunidades quilombolas. Em Pernambuco, há 130 atualmente. Outras dez estão em processo de reconhecimento no estado.

Quando aboliram a escravidão, ficamos escravos do dinheiro. Meu pai queria que eu estudasse e, ainda novinho, lembro o patrão falando: ‘Pra quê estudar? Pra cortar cana?’ Eu sentia cheiro de escravidão”
José Severino da Silva, 67 anos,
neto de escravos

Muitas das mudanças realizadas ou em curso no Quilombo Trigueiros se devem a esse reconhecimento formal da Fundação Palmares. “A gente se achava diferente, mas não tinha essa ideia de quilombola. Toda comunidade tem seus costumes. Aqui, por exemplo, pode trazer a banda mais cara para tocar no São João, mas se não tiver uma palhoça e um sanfoneiro, nem adianta. No outro dia, o pessoal não estaria satisfeito”, explica a presidente da Associação Quilombola de Trigueiros, Edriane Barbosa.

Curiosamente, a sede da instituição funciona na antiga casa-grande do povoado. As iniciais do antigo senhor de engenho ainda cravadas no imóvel – JGCP, José Gomes da Cunha Pedrosa – mostram que a comunidade não nega suas memórias, mas deseja reescrever essa parte da história. “Quando aboliram a escravidão, ficamos escravos do dinheiro. Meu pai queria que eu estudasse e, ainda novinho, lembro o patrão falando: ‘Pra quê estudar? Pra cortar cana?’ Eu sentia cheiro de escravidão”, lembra o aposentado José Severino da Silva, 67. Seu avô era jagunço de senhor de engenho; o pai fazia trabalhos braçais.

Com o gradual desenvolvimento de Trigueiros, as heranças do período escravocrata vão desaparecendo. Seu Severino, por exemplo, que é mais conhecido por Goió, conta que a comunidade cresceu tanto que os cachorros precisam tomar cuidado ao dormir nas ruas, devido à quantidade de carros. Os três que ele tinha – Chaves, Chapolin e Chiquinha – morreram atropelados. O aposentado guarda quase nenhum ressentimento dos tempos de exploração: “Hoje, sou rico”. A casa onde vive com a mulher tem sala com televisão e cadeira de balanço, além de um quintal onde criam algumas galinhas.

Seu Dito largou o trabalho nos engenhos de açúcar para vender os balaios que ele mesmo produzia (Foto: Renan Holanda/ G1)Seu Dito largou o trabalho nos engenhos de açúcar
para vender os balaios que ele mesmo produzia
(Foto: Renan Holanda/ G1)

Relato parecido tem Benedito José da Silva, 72, ou simplesmente Seu Dito. Trabalhou em engenhos de cana-de-açúcar por anos até resolver despender esforço em causa própria. Era final dos anos 1960. “Tive fé em Deus que nunca mais ia cavar sulco para ninguém”, lembra. Aprendeu a fazer balaios e ia ao Recife pelo menos uma vez na semana para tentar vendê-los a comerciantes do Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (Ceasa). “Os primeiros que eu fiz eram meio ruins. Um cara lá pegou, olhou e disse que era uma bomba”, conta, bem humorado. Depois se aperfeiçoou na prática e ganhou a vida vendendo balaios até ano passado.

Quilombo urbano
Para dificultar sua localização e ainda recriar, de certa forma, as estruturas de convivência africanas, os quilombos se assentavam em locais distantes, geralmente cravados em áreas de mata ou floresta. O surgimento dessas comunidades muito está ligado à cultura açucareira. Entretanto, a Fundação Palmares também reconhece os chamados quilombos urbanos, localizados em capitais e grandes centros. No Brasil, há três desse tipo, um deles em Olinda.

Rua principal do Quilombo Portão do Gelo leva o nome de Severina Paraíso da Silva, a Mãe Biu (Foto: Renan Holanda/ G1)Rua principal do Quilombo Portão do Gelo leva o nome de Severina Paraíso da Silva, a Mãe Biu (Foto: Renan Holanda/ G1)

A comunidade Portão do Gelo foi reconhecida como quilombo urbano, o único de Pernambuco, em 2006. Sua história é vinculada diretamente à religião, mais especificamente à Nação Xambá. Os cultos dessa tradição foram trazidos ao Recife pelo babalorixá Artur Rosendo nos anos 1920. Após seguidas perseguições às religiões de matrizes africanas, o terreiro, chamado Santa Bárbara, instalou-se definitivamente em Olinda, em 1951, no bairro de São Benedito. Ali, fruto da resistência da Nação Xambá, nasceu e se desenvolveu o Quilombo Portão do Gelo.

Todas as pessoas que vieram a esse país vieram como imigrantes. Elas tiveram a opção de vir ou não. Nós não, nós fomos obrigados, porque viemos na condição de escravos. Não somos escravos, mas fomos escravizados, é bom que se diga. Então o governo tem por obrigação fazer esse reparo social com essas pessoas que vieram para um lugar que não queriam”
Babalorixá Ivo de Xambá, responsável pela comunidade Portão do Gelo, único quilombo urbano de Pernambuco, situado em Olinda

O babalorixá Ivo de Xambá é, atualmente, o responsável por preservar as tradições da comunidade. Para ele, a partir do momento em que se classifica uma comunidade como quilombola, o governo passa a reconhecer formalmente sua responsabilidade em levar políticas públicas àquele local. “Todas as pessoas que vieram a esse país vieram como imigrantes. Elas tiveram a opção de vir ou não. Nós não, nós fomos obrigados, porque viemos na condição de escravos. Não somos escravos, mas fomos escravizados, é bom que se diga. Então o governo tem por obrigação fazer esse reparo social com essas pessoas que vieram para um lugar que não queriam”, assevera.

Para preservar a identidade, memória e evolução do terreiro e da Nação Xambá em Pernambuco, foi criado o Memorial Severina Paraíso da Silva, nome de batismo de Mãe Biu, que reagrupou a família dispersada pela repressão dos anos 1930. No local, inaugurado em 2002, há fotos, pertences e vestimentas usadas pelas ialorixás da Nação. As limitações de tamanho e também de ordem financeira impedem que o espaço, localizado nos fundos do Terreiro Santa Bárbara, abrigue ainda mais itens.

Na visão de Ivo, o senso de preservação das tradições Xambá faz com que o Portão do Gelo seja uma espécie de fortaleza para questões religiosas e sociais. Eles estão buscando, junto ao poder público, a realização de um censo dentro da comunidade para que se possa saber sua população exata, as principais demandas e prioridades. “Criar o quilombo não é só uma área de resistência, mas é fazer com que o governo faça intervenções para privilegiar aquilo que eles [quilombolas] não tiveram, que é uma educação de melhor qualidade, a questão profissional. Toda as benesses que o cidadão comum teve ao longo desse tempo e que essas pessoas não tiveram”, explica.

Ivo de Xambá observa imagens de Memorial criado nos fundos de terreiro (Foto: Renan Holanda/ G1)Ivo de Xambá observa imagens de Memorial criado
nos fundos de terreiro (Foto: Renan Holanda/ G1)

Legislação
A definição legal de quilombo só veio a ser formalizada por meio do Decreto 4.887, de 2003, que assim considera os remanescentes dessas comunidades: “Os grupos étnico-raciais, segundo os critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”. O próprio termo “quilombo”, que na legislação colonial era enquadrado como crime, sumiu da base legal brasileira durante o período republicano.

Segundo um documento da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), vinculada à Presidência da República, o termo apenas veio a reaparecer na Constituição de 1988, como uma categoria de autodefinição. Por meio do artigo 68 da Constituição, finalmente se reconheceu aos remanescentes de quilombos o direito à propriedade definitiva das terras que ocupavam.

Por serem quilombolas, os moradores do Portão do Gelo, por exemplo, têm um cadastramento diferenciado no Bolsa Família. No Quilombo Trigueiros, também por meio do governo federal, estão sendo construídas 40 casas populares e outras 49 já foram autorizadas. “O quilombo hoje é, nada mais nada menos, essa fortaleza que não vai só proteger a questão social e religiosa do homem negro, mas também vai junto ao governo buscar mecanismos de melhoramento”, resume Ivo de Xambá.

Antiga casa-grande foi transformada na sede da Associação Quilombola de Trigueiros (Foto: Renan Holanda/ G1)Antiga casa-grande foi transformada na sede da Associação Quilombola de Trigueiros (Foto: Renan Holanda/ G1)

 

Culto a Divindade Orô

Orô é uma divindade masculina que representa a ancestralidade dos Homens, é um Deus similar à Iyámi, o Culto a Orô representa o culto indireto a Ikú, é um dos cultos aos mortos, Deus da Destruição é considerado como o portal para a ressurreição. Segundo um de seus mitos, toda alma ancestral masculina para que pudesse renascer na Terra deveria ir ao seu encontro, a alma teria de ser devorada pelo Deus. Orô é considerado como um Deus incontrolável, conta-se que quando Orô sai pelas ruas ninguém deve ficar em seu caminho ou será sacrificado. Orô possui uma voz extremamente grossa e cavernosa, seu grito ecoa como um trovão na floresta da morte, ele absorve a vida de tudo. A única divindade que trata com Orô é Xangô, pois foi o único a fazer os Ebós necessários para isso. Apenas homens podem prestar culto a Orô.

 

Muitas sociedades alcançaram o título de “poderosas” na Religião Yorubá, mas nenhuma alcançou o prestígio da Sociedade Secreta Orô. Na antiguidade esta sociedade, semeava o terror dentro do poder, já que seus emissários ocultos, por baixo de máscaras impediam o abuso de sacerdotes, monarcas inclusive de anciões, que formavam o conselho central do reino. A missão desta sociedade, prevalecia em todas as exigências religiosas e era tão poderosa, que possuía o direito de vigiar se os governantes respeitavam os preceitos morais divinos. Eles são os defensores e reguladores da ordem tradicionalista, do cuidado com o conhecimento, do folclore, da história e dos mitos. Os membros desta sociedade, desempenhavam múltiplas funções sociais. Os membros da Sociedade Orô, se preocupavam, com o adequado “respeito ao culto dos ancestrais”, mantendo-o vivo, por tanto, os membros desta sociedade se encarregavam de conseguir que os mortos fossem enterrados conforme determinados rituais apropriado e sua almas chegassem com segurança ao reino dos mortos, inclusive aquelas pessoa, que por infelicidade fossem mortas em acidentes ou tivessem mortes trágicas. Orô Aboluaje, é o título que se lhe dá e seu significado seria: “o que pode recolher da areia da vida o chefe dos feiticeiros”, é um espírito deificado dos homens. Orô recebe o nome de Ita e tem um companheiro com o qual lhe chama ao vento, seu nome é Irelê, com o qual caminha e se alimenta.  Ele é representado por um filete, cuja confecção é um segredo e vive encima dele. Orô é chamado de Deus do mistério. Segundo o Odu Ogbe-Osa, onde disse que vagava pelo bosque e fundou o estado de Kwara, a deidade do segredo do retiro e do encanto. Na antiguidade a Sociedade Orô, estava vinculada à Sociedade Ogboni(Osugbo), eram os executores dos criminosos; quando um criminoso era condenado pela Corte Ogboni, eram os membros do Culto de Orô, os que executavam a sentença. Quando Orô, saía à rua durante a noite, os que não pertenciam a esta sociedade deveriam ficar recolhidos em suas casa ou corriam o risco de morrer. Eles estabeleciam “o toque de recolher”. Durante o ano havia de sete à nove dias dedicados as festividades de Orô, especialmente em lua nova, onde as mulheres teriam que permanecer trancadas dentro de suas casas, com exceção as poucas horas, em que era permitido saírem para diversos fins. No sétimo dia nem sequer isto seria permitido, sob rigorosa pena de morte. Deveriam permanacer trancadas, sem importar qual era seu status social ou título de nobreza. Quem desobedecia as regras desta sociedade era executado. Orô é uma das forças sobrenaturais que atuam durante a noite. Esta divindade trás prosperidade, mas ao mesmo tempo a destruição.

 

 

Oró Aféfé Ikú! (Orô o vento da morte!)

 

A Sociedade Orô (Orùn ou Oró Lewé)

A Sociedade Orô é considerada entre os Iorubás a mais poderosa. Entre os Oyo e os Egba (cuja capital é Abeokuta) seu poder político supera as exigências religiosas. Orô possui o direito de vigiar se os governantes respeitam os preceitos morais divinos. Orô está basicamente a serviço dos espíritos dos mortos e por isso só aparecem de noite. Seu emblema é um pedaço plano de ferro ou madeira (sobre tudo de madeira de Óbó ou Kam, que as bruxas (Aje) não podem ver nem farejar, presa a um cabo com corda, o que a converte em uma madeira que zúmbi (emitindo um som todo particular ao ser manuseada). Cada Sociedade dispõe normalmente de dois tipos destes utensílios. Um é pequeno e se conhece com o nome de Ise (moléstia) e o tom estridente que produz, se conhece como Ajá Orô / Aaja Orò ( Cachorro de Orò / Vento de Orò = Orò Afefe Ikú! ). O outro provem dos madeiros grandes chamados Agbe (espada) e emite um tom surdo que é considerado como a mesma voz de Orô, este som anuncia que a morte está ameaçando alguém. Orò reproduz a voz dos mortos e por isso se diz que  os mortos os chamam. A adoração de Orô deve ser realizada de preferência sob a Lua Nova. Os adeptos da sociedade, costumavam levar máscaras de madeira, porém estas não chegam a cobrir todo o rosto.

Oriki Orô

“Óró mà nì kó.
Óró mà jà kó.
Óró Tóhùn tíré síté.
Óró Óhùn Ótòhùn nì ímà wà kírì.
Ásè!”

Tradução

“Orô causa confronto.
Orô não me cause confronto.
Orô tem a voz do poder.
Orô tem uma voz que ressoa por todo o Universo.

Que assim seja.”

 

 

Ofo t’Orô

 

Werewere Orô yê o! Werewere Orô yê o!

Werewere Orô yê o! Werewere!

Orô yê o!

Werewere Orô yê o! Werewere!

Sesé kurú ru

Obà nen yê!

 

Tradução

 

Oh! Orô que vive com pressa, oh! Orô que vive com pressa

Oh! Orô que vive com pressa, impaciente!

Oh! Orô o eterno

Receba a oferenda, poder que surge da morte

Rei eterno.

 

Texto: Oba kaloje/Internet

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