
Casa do Benin, Bahia por Cláudio Zeiger
O post a seguir é um trecho retirado do livro O candomblé da Barroquinha-Processo de formação do primeiro terreiro baiano de keto, cujo autor é Renato da Silveira, publicado pela editora Maianga, com autorização do autor. O objetivo era mostrar a importância de se conservar as raízes, ainda que no decorrer do caminho, algumas pequenas coisas sejam absorvidas e integradas ao cotidiano dos barracões. Trabalhos como o do professor Renato só são possíveis pela preservação dessa cultura, pelo repasse através da oralidade, registro de documentos. A história que escrevemos hoje pode ser contada mais tarde, se deixarmos algo documentado ou transmitirmos nosso conhecimento. O trecho que escolhi retrata as várias influências africanas na formação do primeiro terreiro de Ketu da Bahia e que foram incorporadas a esse culto, a essa nação.
Os cultos anteriores à chegada dos nagôs e sua influência no candomblé de Ketu
“Os estudos em etnolinguística, iniciados na Bahia por Vivaldo da Costa Lima e desenvolvidos por Yeda Pessoa de Castro a partir da década de 1960, logo dariam seus bons frutos, levando à descoberta de que boa parte do vocabulário ritual utilizado nos candomblés baianos “de keto” vinha do fongbe, a língua dos jejes vizinhos. A terminologia de estratificação dos grupos de iniciação adotada tinha portanto origem no culto dos voduns, uma vez que termos como dofono, gamo, domo, vito, além de outros já abrasileirados como dofona, dofonitinha, doma, domutinha etc., eram parte de um léxico, segundo Costa Lima, “genuinamente fon”.
E não é só. Várias outras expressões referentes aos instrumentos musicais, à organização espacial e às hierarquias dos terreiros de keto também se revelariam de origem fongbe ou de línguas vizinhas. Assim, o altar onde se encontra o axé do orixá chama-se peji (kpeji) e o seu zelador, pejigã (kpejigan), termo que inclui um outro muitíssimo usado pelo povo-de-santo, ogã (hogan), que siginifica “senhor” em língua fon. Do mesmo modo o runcó (hunko), camarinha, quarto de reclusão dos iniciados, assim como o assém (asen), também chamado de “assento”, local onde ficam os objetos votivos, dentro de casa ou ao ar livre, o junto, que é uma espécie de divindade pessoal ascendente (o eledá é o orixá principal), vem do termo fon djoto (o qual, contudo, pode ter tido origem no ioruba àjòtó, “aquele que ajuda a criar”); o nome dos dois atabaques maiores, rum (hun) e rumpi (hunkpi), além d abaqueta de percussão, aguidavi (agidavi), também são provenientes daquela área lingüística. Na verdade, termos de uma língua esotérica, o hungbe, literalmente “a língua da divindade”, usada pelos cultos da área fronteiriça fon-nagô.
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Creio que essa cultura jeje-nagô levou os africanos da Costa da Minha escravizados na Bahia a absorver mais facilmente algo que encontraram nas terras brasileiras e que muito lhes facilitou a tarefa.Quando os nagôs chegaram à Bahia já encontraram uma tradição de base jeje bem implantada, com alguns elementos fundamentais, como a organização espacial do terreiro e os ritos de iniciação bem estruturados, com sua terminologia bem estabelecida. Mas os próprios jejes, quando chegaram à Bahia, já encontraram uma tradição ritual estabelecida de base angolana e congolesa, e dela absorveram “fundamentos”, procedimentos, iconografia e terminologias.
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Ao lado da influência jeje, a influência dos congos e angoleiros parecem, portanto ter sido maior do que a literatura antropológica tem admitido, exigindo pesuisas específicas no setor. De qualquer maneira é evidente que o Candomblé da Barroquinha integrou ao seu ritual ingredientes, estruturas, vocabulários que já estavam funcionando com sucesso por aqui, ao agregá-los às poderosas tradições vindas de várias regiões da Iorubalândia, particularmente quatro que terminaram sendo as mais importantes.”
O autor nos cita a tradição jeje-nagô, tradição iorubá-tapá, e povos oriundos da bacia do rio Oxum. E então ele vai descrevendo a origem de alguns orixás assim como origem de algumas qualidades de Orixá. É bom frisar que são somente algumas qualidades.Pra ilustrar,a origem do culto aos voduns jejes Nana Buruku, Obaluaíê/Omulu e Oxumaré era uma região fronteiriça de Federação Marrim e do leste do Daomé,esses deuses são antiqüíssimos e foram integrados ao panteão Yorubá, tornando-se orixás.
Outro exemplo, os nagôs de Ekiti e Ondô trouxeram Ogum que era uma dos deuses mais venerados na África Ocidental por causa da importância da metalurgia. Yemanjá foi trazida pelos ebás ou egbás, habitantes do centro sul do país yorubá, ela era orixá oficial da cidade de Abeokutá, a capital do país egbá. Os yorubás de Oyó trouxeram o culto de Xangô e de Oyá e de Yamassê uma qualidade de Yemanjá que é a mãe de Xangô.
O livro é muito interessante para quem gosta de saber o porquê de pequenas coisas e detalhes dentro da religião. O autor fez um texto baseado em entrevistas com pessoas eminentes nas casas tradicionais e em documentos da época, no caso: ocorrências policiais, jornais e outros documentos. É um livro volumoso,para quem gosta de candomblé e para ser lido aos poucos.
Axé a todos










Gostei muito da idéia de expor uma resenha do livro.Achei super válido para termos idéia de que tipo de leitura se trata e se esta está de acordo com a expectativa do leitor.Digo isso porque já comprei livros achando que o assunto era um e ao ler era completamente outro.Fica aqui a sugestão de fazer isso novamente com outros títulos
Parabéns!
Oi Edson
Eu queria ter colocado muito mais coisas do livro,mas o autor limitou a alguns trechos pequenos. E como é livro extenso,e não tenho impressora inteligente fica dificil digitar tudo.
De inicio eu não gostei, sendo sincera com vc,mas depois quando comecei a visitar o blog, percebi que muita coisa que eu não dava importancia,tirava duvidas de irmãos, aqui no blog.
Então resolvi falar um pouco do livro porque pode ajudar, é uma forma de a pessoa passar de necessitado a útil.Assim como vários outros títulos que temos publicados,o negócio é divulgar, é ler e passar adiante.
Abraço
Carol
É isso mesmo, é justamente assim que estava pensando. Muitas vezes achamos que determinados assuntos, rotineiros em nossa vivência, sejam tão simples que poucos se interessariam, mas logo percebemos que o que é simples para alguns é novo para outros, daí a importância dessas informações.É claro que o essencial se aprende na casa, mas acredito que para entendermos de forma mais ampla essa religião é necessário o conhecimento da história e da geografia. Além de entendermos vários porquês, passamos a dar maior valor àqueles que, com muita luta, não deixaram o Candomblé morrer. Existem inúmeros livros que falam sobre estes assuntos, no entanto, alguns nos quais depositamos expectativas enormes, nos frustam durante a leitura.Então, como disse anteriormente, embora pareça cômodo e preguiçoso esta forma de ler resenhas, ao meu ver é super positivo, pois temos idèia do que realmente estamos procurando.Cabe a cada um depois correr atrás.Valeu pela dica!
Sempre e de grande avalia qualque tipo de informaçao,nunca e demais ler e reler sobre assuntos conhecidos ou nao.Um bom livro tem que ser saboreado bem de vagar letra por letra,ascimilanto todo o seu contexto.Obrigada irma Carol.Beijos e saudades .
Mucuiú!
Nossa Irmanzinha Que bacana!
Ficou um texto muito rico, falando muito em poucas palavras. Realmente é um livro que chama a nossa atenção
reconstruindo a trajetória do Ketu, falando sobre detalhes e aspectos importantes da formação de identidades étnicas dos africanos. E como se a gente estivesse lendo caminhando da África para o Brasil e do passado para o presente. É mesmo uma forma de resgate e cultura e conhecimentos.
Com a senhora disse, pra quem gosta de” ler” terá uma leitura muito envolvente.
Axé!
Olá Jady
O mais incrível nesse livro é que ele acaba traçando um pouco da hisstória da nossa nação: Angola,pois ele retrata as primeiras manifestações do candomblé e como os angoleiros chegaram antes, ele retrata um pouco de angola, buscando mostrar essa influencia tb no candomblé Ketu.
É realmente muito interessante
Olá isa dias!
Eu gosto de ler mas não toda essa paciência não!!
beijocas irmãs
Pessoal,
Primeiramente quero parabenizá-los pelo blog. Ótimos artigos, sensacional!
Bem, minha pergunta não tem muito haver com o post, mãããs…
Eu gostaria de saber de vocês, pessoas já vividas no Candomblé, sobre a relação Homem x Orixá.
De fato, o santo interfere, direta ou inderetamente, na vida pessoal do seu filho? Relacionamentos, emprego, carreira, estudos e etc.
Sou de Oxum, nunca fui feliz no que se diz respeito ao amor, mas hoje estou mais tranqüilo… Namoro uma pessoa que também é de Oxum, e vejo muitos comentários do tipo: “Ah!, como assim? Duas Oxum’s nuuunca serão felizes!”… E isso me deixa bastante confuso.
É complicado sim. Pois as vezes aquele melo-drama dos filhos de Oxum está “reinando” nos dois, e daí complica tudo. Brigamos bastante, e o pai-de-santo dele já disse que é por causa de santo, pois ele ainda não é feito e o santo dele está cobrando.
Ensinaram-me que Pomba-giras, Exús e outras entidades, podem sim interferir na nossa vida, muitas vezes por ciúmes de nós. Por acharem que iremos abandoná-los e coisas do tipo. Mas Orixá… Não sei não.
Podem me dar uma luz?
Ajudem esse irmão que quer, dia após dia, aprender e amar mais esse mundo mágico dos Orixás!
Fico no aguardo.
Olá Dofono de Oxum
Olha só o orixá não vai afetar sau vida pessoal nesse sentido,ele ajuda a intensificar certos comportamentos nossos,por exemplo, Vc pode ser uma pessao naturalmente vaidosa e com Oxum por perto essa qualidade se intensifica.
Mas não vai interferir de forma negativa para que vc termine um relacionamento.São coisas domináveis que afetam os relacionamentos, a compreenssão ou falta dela por exemplo, o ciúme, o sentimento de posse.Isso eu já vi acabar com relacionamentos, mas o orixá não faz isso. Pode haver conflito quando a pessoa é da religião e o outro não aceita.Mas em tudo é preciso bom senso para distinguir o que realmente ocorre, odiálogo é o melhor caminho,sempre
Axé
OI CAROL,E MAIS UMA OBRA SUA,EXCELENTE IDEIA PRA QUEM SÓ GOSTA DE LER UM LIVRO SE GOSTAR DA CAPA (MEU CASO)AGORA VOU DIRETO PRAS LIVRARIAS FIQUEI COM AGUA NA BOCA PRA SABER O RESTANTE DO CONTEUDO DESTE LIVRO.
AXÉ!!!!
Que bom Danny!
Mas vc leu os comentários abaixo? O livro pode ser um pouco chato no início,e edundante,mas tem coisas que valem a pena
Axé
Antes de mais nada quero parabenizar pelo blog. Acho muito ricas as discussões aqui propostas e ajuda a esclarecer muita gente desmistificando nossa religião.
Para quem quer se aprofundar sobre a formação do Candomblé, ai vai uma sugestão de outro livro que é o resultado de uma pesquisa muito bem feita pelo Luis Nicolau Parés, cujo título é
“A Formação do Candomblé: História e ritual da nação jeje na Bahia”.
Vale a pena conferir!!!!
Beto d’Oxum obrigado pela indicação, se vc tiver mais outras indicações, por favor, esteja a vontade, estamos aqui para divulgar o máximo possível. Axé Tomege
Nelson,
sobre a formação do candomblé conheço poucos… estou até pesquisando outros, pois pretendo construir um estudo sobre o Candomblé no Distrito Federal e Entorno.
Sobre o Candomblé Jeje tem o livro “Gaiaku Luiza e a Trajetória do Jeje-mahi na Bahia” do autor Marcos Carvalho. Ele organizou uma série de depoimentos de Gaiaku nos dá um panorama de como funcionou o candomblé em Cachoeira de São Félix.
Em meu blog tenho alguns links de downlouds de livros sobre outros assuntos relacionados ao candomblé, às africanidades…
Podem ficar a vontade!!!
http://dofonodeoxum.blogspot.com/
Colofé!!!
Beto vc já viu na barra lateral em Leituras recomendadas? lá tem bastante livros bons indicados. Fique de fato a vontade aqui, vou visitar seu blog agora. Tomege
Velhinho, tô sem pc, então o tempo tá curto. Mandei uma indicação ao senhor por e-mail. vamos ver se dá pra eu ler ainda hoje, claro que com todo seu favor!=D Eu aperreio, né? rsrs
Olá Beto d`Oxum
Olha só eu li o título desse livro exatamente hoje no site de um jornal local e chego aqui encontro sua indicação,mais uma motivo para busca-lo e adquirir quando der….Muita coincidência…Essa senhora, Gaiaku Luiza ,é citada no livro Da Barroquinha.
Muito obrigada pelas indicações, entrarei no seu blog
Axé
Nelson, conheço boa parte dos livros que estão sugeridos na barra lateral… são realmente muito bons… alguns eu tenho.
Carol, vale a pena ler o livro… muito bom mesmo!!!!
Colofé!!!!
olà,
minha familia è toda envangelica, e durante muito tempo ouvir falar que a minha bisavò contribuiu para o crescimento do candomblè na Bahia em minhas pesquisas pela internet e outras fontes nao vejo nenhum registro disso, porem discutindo com algumas pessoas do axè onde muitos jà ouviram falar dela (Maria Salomè Barbosa) mim disse que isso foi verdade, alguem poderia mim ajudar caso ja ouviram falar mesmo dela? pois carrego tudo do axe de herança e acredito que seja dela.
Olá Dahod
Preciso de mais informações,
Qual o nome da casa, a digina dela,que cidade ficava,nação.Eu prticularmente não conheço,mas odemos fazer uma busca no google, em livros…
axé
Carol, seu texto é muito bom…Ekedy juju d’Osun
Olà Carol,
Infelizmente eu nao sei mais nada sobre ela, pois minha familia esconde essas informaçoes, mas vou tentar forçar alguns deles a mim contar mais.
obrigado pela força,
axè
gostaria que alguem me desse informaçao sobre o pai nelson de aganju o terreiro dele e em cocalinho goias, si for possivel eu agradeço muito, obrigado